Paris, je t’aime (mas com dinheiro do povo baiano)

Paris, je t’aime (mas com dinheiro do povo baiano)

7 de Outubro, 2025 Não Por admin

Quatro deputados baianos – Manuel Rocha (União), Ricardo Rodrigues (PSD), que é vice-presidente do colegiado; Luciano Araújo (Solidariedade); e Paulo Câmara (PSDB) – vão à Paris. E não, não é para discutir desigualdade social, nem para estudar políticas públicas francesas. É para ir à feira internacional do chocolate.

A viagem, claro, tem um propósito nobre: “fortalecer a cadeia do cacau baiano”. Um objetivo tão vago quanto conveniente. Afinal, quem poderia ser contra fortalecer a economia local? Ainda mais degustando trufas e ganaches no caminho.

É bonito ver tanto comprometimento com o produto regional. Só falta convencer os produtores, que seguem enfrentando estradas intransitáveis, preços baixos e pragas nas lavouras. Enquanto isso, seus representantes atravessam o Atlântico para “representar o setor”. De terno, gravata e provavelmente hospedados num hotel onde o preço de uma diária paga a renda mensal de um trabalhador rural.

A justificativa oficial fala em “promover o cacau baiano no mercado europeu”. Fica a dúvida: será que os chocolatiers franceses, líderes mundiais do setor, estavam apenas esperando a visita de um grupo de deputados para começar a importar cacau da Bahia? Difícil imaginar um empresário francês suspendendo a produção da Valrhona para abrir uma cooperativa em Ilhéus depois de uma conversa inspiradora no estande da comitiva baiana.

Convenientemente, a Assembleia mudou há pouco suas regras internas para permitir o reembolso de viagens internacionais. Não se trata de oportunismo, claro. É apenas o dever institucional de provar bombons e fortalecer o agronegócio.

Enquanto o eleitor conta moedas para pagar o transporte, o parlamentar alega “missão de interesse público” para embarcar num voo de R$ 30 mil. Tudo pago com o dinheiro de quem mal consegue comprar um tablete de chocolate importado.

O cacau é baiano, o chocolate é francês, e a conta, sua. Mas que não se diga que faltou retorno: pelo menos agora o povo da Bahia pode dormir tranquilo, sabendo que seus representantes estão cuidando do futuro do cacau — entre um croissant e outro, às margens do Sena.