A hipocrisia da proibição das fantasias religiosas

A hipocrisia da proibição das fantasias religiosas

30 de Setembro, 2025 Não Por admin

Salvador, berço de uma das maiores festas populares do planeta, aprovou uma lei que proíbe fantasias de cunho religioso no Carnaval. A justificativa seria o respeito às crenças. Mas a medida soa mais como censura e contradição do que como proteção à fé.

Carnaval sempre foi o espaço da sátira, da crítica e da irreverência. Padres, freiras, orixás, santos, diabos e entidades sempre desfilaram lado a lado em blocos e trios. Mistura, excesso e liberdade fazem parte da essência da festa. Impor agora uma regra que veta expressões religiosas — num país onde a religião já ocupa espaço privilegiado em palanques políticos, emissoras de TV e até em decisões de Estado — é de uma hipocrisia gritante.

Vale lembrar: os mesmos grupos que dizem defender a fé contra a “ofensa” de uma fantasia são aqueles que invadem terreiros, atacam cultos afro-brasileiros e transformam seus dogmas em lei. A proteção, ao que parece, não é para todas as religiões, mas para a visão hegemônica de fé. O resto continua alvo de preconceito e perseguição.

Mais irônico ainda é perceber que os políticos não demonstram a mesma pressa quando se trata de proibir fantasias que ridicularizam mulheres ou reforçam estereótipos contra a população LGBTQ+. Nesse caso, o “respeito” some, e a ofensa vira apenas “brincadeira de Carnaval”.

A verdade é simples: não se trata de respeito. Trata-se de controle. Usar o argumento religioso para podar a liberdade criativa é um passo perigoso para qualquer democracia. Carnaval não é culto. É arte popular, transgressão e crítica social. E se não houver espaço para rir até daquilo que é sagrado, o risco é que não reste espaço para rir de mais nada.

Foto: reprodução