Jerônimo Rodrigues causa polêmica ao sugerir que bolsonaristas sejam “levados para a vala”; governador se retrata

Jerônimo Rodrigues causa polêmica ao sugerir que bolsonaristas sejam “levados para a vala”; governador se retrata

6 de Maio, 2025 Não Por admin

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), gerou forte repercussão ao declarar, durante um evento público na cidade de América Dourada, que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores deveriam ser “levados para a vala” com o uso de uma “enchedeira”, em referência a uma retroescavadeira.

A fala foi registrada em vídeo durante a inauguração de uma escola e rapidamente circulou nas redes sociais. O trecho exato da declaração foi: “A gente pega uma enchedeira e empurra logo esse Bolsonaro e esses bolsonaristas tudo pra vala.”

A declaração provocou reações imediatas de parlamentares da oposição. O deputado estadual Diego Castro (PL) apresentou denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF), acusando o governador de incitação à violência. Já o deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR), solicitando investigação formal contra o governador por suposto incentivo ao crime.

O ex-presidente Jair Bolsonaro também se manifestou por meio das redes sociais, classificando a fala como “um discurso de ódio explícito” e cobrando providências das instituições.

Diante da repercussão negativa, Jerônimo Rodrigues veio a público no dia 5 de maio para se retratar. Em nota oficial, o governador afirmou que sua fala foi tirada de contexto e que não teve a intenção de ofender ou incitar qualquer tipo de violência. “Reconheço que o termo foi inadequado e peço desculpas a todos que se sentiram ofendidos. O que defendo é o combate firme ao bolsonarismo como ideologia antidemocrática, nunca à integridade física de pessoas.”

Apesar de criticar discursos violentos, Sanderson também já foi acusado de incitar o crime

Embora o deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) costume criticar duramente adversários por supostos excessos verbais e incitação à violência, ele próprio já foi acusado de adotar uma retórica inflamável. Em abril de 2025, ao comentar a possibilidade de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, Sanderson declarou que o Brasil “viraria um barril de pólvora”, o que foi interpretado por analistas e opositores como uma ameaça velada à ordem institucional. A fala gerou críticas por soar como um estímulo à desobediência civil ou até mesmo à violência em caso de decisões judiciais desfavoráveis a figuras ligadas ao bolsonarismo.

Discursos de ódio marcaram o governo Bolsonaro

As declarações de Ubiratan Sanderson em defesa de Jair Bolsonaro ganham um contorno ainda mais controverso quando se considera o próprio histórico do ex-presidente em relação a discursos de ódio. Enquanto Sanderson acusa adversários de incitação à violência, o líder político que ele defende foi, ao longo dos anos, protagonista de diversas falas ofensivas que alimentaram a polarização política e social no país.

Durante seu mandato entre 2019 e 2022, Jair Bolsonaro acumulou uma série de declarações que foram amplamente classificadas como discurso de ódio por especialistas e organizações de direitos humanos. Ele já atacou mulheres, indígenas, jornalistas e a comunidade LGBTQIA+, sempre em tom provocativo, por vezes grosseiro, escudando-se na ideia de que se tratava apenas de “opinião”. Em uma de suas frases mais notórias, ainda como deputado, afirmou que “seria incapaz de amar um filho homossexual” e que preferia “que ele morresse num acidente”.

Como presidente, o tom não mudou. Durante a pandemia de COVID-19, minimizou mortes, ridicularizou vacinas e atacou governadores e prefeitos que implementaram medidas de contenção do vírus. Além disso, seus constantes ataques ao Supremo Tribunal Federal e ao sistema eleitoral ajudaram a criar um clima de desconfiança institucional, que culminou nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023. Esses episódios evidenciam como o discurso bolsonarista, longe de ser apenas retórico, teve impacto direto na radicalização política e em episódios concretos de violência.

Fala infeliz de Jerônimo revela descuido, não padrão de conduta

A declaração do governador Jerônimo Rodrigues sobre “levar Bolsonaro e seus eleitores para a vala” foi, sem dúvida, infeliz e inaceitável no espaço democrático. O uso de metáforas agressivas, especialmente em tempos de polarização acentuada, contribui para o ambiente de tensão política que o país já enfrenta. A repercussão negativa, tanto nas redes quanto entre adversários, foi previsível — e o próprio governador reconheceu isso ao se retratar publicamente dias depois, classificando a fala como inadequada e pedindo desculpas.

No entanto, diferentemente de figuras políticas que constroem suas trajetórias com base em ataques sistemáticos, Jerônimo não tem histórico de incitar violência nem de promover o ódio como ferramenta política. A fala parece ter sido resultado mais de um erro de expressão, agravado pelo calor do discurso, do que de uma postura consistente de intolerância. Ainda que o episódio deva ser criticado e levado a sério, é importante distinguir entre um deslize isolado e uma prática reiterada de alimentar hostilidade política.